No Zen o bem e o mal não existem?

Se o Zen se opõe ao pensamento dualista, significa isso que o bem e o mal não existem? Poder-se-á fazer tudo o que se queira?

Na medida em que também configura um sistema filosófico, o Zen, à semelhança de muitas outras filosofias, tem sido utilizado para racionalizar e justificar actos malignos. As palavras e os conceitos de um qualquer sistema filosófico ou ético podem ser desvirtuados para justificar superficialmente quase todas as tomadas de posição. Mas o Zen não é um sistema conceptual e verbal utilizado para se auto explicar. É o estado do universo momento a momento, agora mesmo. Em termos absolutos, esta presença precede e não requer os conceitos de bem e de mal. Se se tomar de facto consciência de que o ego individual, uma comunidade, uma nação, uma espécie animal, é um fragmento mutável e transitório que não pode existir senão em interdependência com o universo inteiro, então a ideia de colocar os interesses desse fragmento sobre o remanescente não tem sentido e é tido como impossível a longo prazo. De um ponto de vista absoluto, tu e o teu vizinho são um e, por consequência, o teu verdadeiro eu nada obtém se ofenderes ou roubares o teu próximo. De facto, tais ações criam efeitos que apenas fazem aumentar a tua cegueira em relação à tua verdadeira natureza.
Assim, se “o bem” é tido como o agir intencionalmente em benefício da existência do todo, e “o mal” como o colocar intencionalmente os interesses de um indivíduo ou de um grupo sobre os outros, então aquele que verdadeiramente se cumpriu será incapaz de fazer mal. No Zen, o “bem” e o “mal” não são nem juízos morais nem padrões de comportamento impostos do exterior. Através da plena consciência descobrimos o que é benéfico (“certo”) e o que não é benéfico (“errado”). Os conceitos de bem e mal são guias úteis para nos ajudarem no caminho da compreensão, mas os conceitos deixam de ter a sua utilidade se pudermos ver as coisas como realmente são. Por outras palavras, o “bem” e o “mal” não existem em termos absolutos, mas sim em termos relativos. Ao agirmos no plano da existência relativa temos de avaliar se os nossos pensamentos, palavras e ações têm em vista o bem geral.

O que é a não-virtude, o mal? Verás que é difícil estipular uma regra para a não-virtude. Cada qual está em circunstâncias diferentes. Não há duas pessoas que ajam exactamente segundo o mesmo ponto de vista. Como podes dizer o que está certo e o que está errado, o que é a virtude e a não-virtude? Vejo que te podes enredar com esta pergunta. Vou-te dar a resposta mais concisa à tua pergunta, “O que é a não-virtude, o que é o mal”? Para ser o mais conciso possível, a não-virtude é o auto-comprazimento. Que fique claro como ocorrem as ações não-virtuosas: o grande senhor do mal é o auto-centramento, agarrar-se ferozmente a uma falsa noção do eu, agitando-o no tempo, lugar e circunstância. É evidente que isto se aplica também aos que presumidamente reconhecem as suas faltas. “Eu, me, meu”. Se te agarras a este sentido totalmente falso do eu, todas as tuas ações, independentemente do que faças, são não-virtuosas. Mesmo que procures fazer o bem, não é evidente que, se prestares atenção, a raiz do mal é o auto-comprazimento? “Primeiro eu”. Procuras situações que sirvam as tuas conveniências. Isto é ir diretamente ao fundo, do problema, da questão da não-virtude, e é uma dura e amarga revelação.
Harada Tangen Roshi

No genuíno cultivar da prática há, no fundo, apenas um caminho: o de tomar votos. O que significa então tomar votos? Significa corrigir a tua própria conduta mental. O pensar, o processo de estimular a mente e de colocar os pensamentos em andamento, é um agir que ainda não se manifestou. Qualquer forma de conduta é uma expressão activa do pensamento. Ao consagrares-te ao caminho, deverás saber que tudo começa e acaba na atitude. O caminho tem a ver com a conduta e com a atitude, o levar a cabo os votos. Esta é a suprema verdade e também a verdade mais simples: fazer o bem e refrear-se do mal é, como um grande círculo, o começo e o fim do caminho.
Nan Huai Chin

cortesia de openway.org.au /tradução de José Eduardo Reis


Anúncios

One thought on “No Zen o bem e o mal não existem?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s