Dificuldades na relação mestre-discípulo

Reconheço que há algo de especial em si e no seu mestre. Há algo de inequívoco, na certeza com que declara conhecer a verdade e o sentido da vida, algo que não pode ser negado. E fico feliz quando o vejo exprimir aquilo que eu sinto como ser a verdadeira realidade. Uma vez por outra, chego até a compreender de maneira intuitiva aquilo que exprime, mas a verdade é que só me sentirei satisfeita quando directamente conseguir experimentar isso por mim mesma. Quando diz, «eu sou esta mesa», ou «o universo é esta chávena de chá», não consigo compreender o que está a dizer. Mas o problema que tenho em compreender as suas palavras é ínfimo, quando comparado com o problema que sinto em compreender as suas acções.

Embora eu sinta grande apreço e respeito por si, muitas vezes verifico que as suas acções na vida quotidiana contrariam os meus conceitos sobre justiça, amor, compaixão, consideração pelo próximo, generosidade, e até mesmo, intuição; é-me difícil reconciliar a sua conduta com os meus princípios. Por exemplo: pôr tantas exigências àqueles que vivem mais perto de si (família, amigos, discípulos). Porquê?

Quando pensei que precisava da minha ajuda, senti-me feliz por poder oferecê-la; contudo, não me pareceu nada justo, estando eu a trabalhar no seu livro, ter-me vindo pedir para fazer esta ou aquela coisa, quando tê-la-ia podido fazer perfeitamente. Percebo que a devoção que alguém dedica a outra pessoa possa ser uma manifestação de amor ou de amizade, mas certamente que não há reciprocidade no amor se a outra pessoa apenas retribui com mais e mais exigências! Disse-me uma vez que se eu o criticasse, ser-lhe-ia impossível continuar a pedir-me o que quer que fosse, e que a minha crítica talvez significasse que eu não queria compreender a verdade. Nestes últimos meses, tivemos muitas discussões mas, sobre este ponto, parece-me que não conseguimos chegar a um entendimento recíproco. E se a realização da verdade no Zen não faz com que uma pessoa se torne mais afectiva, então, tem toda a razão, talvez eu não queira mesmo compreender a verdade!

Torna-se mais fácil relacionar-me com a vida de Cristo e com o seu incondicionado amor – curando os doentes, indo em socorro dos aflitos, dando ensinamentos e, por fim, abandonando a sua própria vida para o bem da humanidade – que me relacionar com os mestres Zen iluminados que se retiraram do mundo ou que se recusaram falar durante anos, agindo de maneira irracional para com os seus discípulos. Porque faço então zazen? Porque o Zen oferece a possibilidade a uma pessoa de experimentar por si a verdade, e também porque disponho desta oportunidade em aprender directamente com um mestre Zen vivo.

Quando o conheci, senti-me inspirada e percebi logo que me poderia ensinar. Hoje considero-me eleita por ter trabalhado de perto consigo durante todo este tempo. Não tenho dificuldades em me relacionar consigo e, como meu amigo, posso pedir-lhe um conselho sobre tudo isto, mas já no que toca à relação mestre-discípula sinto grandes dificuldades em me aproximar de si. Não consigo deixar de conotar a relação mestre-discípulo com a relação mestre-escravo ou com a relação tradicional homem-mulher. Sempre evitei seitas religiosas que obrigam os seus seguidores a abandonarem tudo para se devotarem inteiramente a um mestre. Na minha condição de mulher que se bate por um mundo cujo ideal é a igualdade, não posso deixar de considerar esse tipo de relação como um passo atrás. Parece-me ser um erro capital deixarmos de acreditar no nosso eu mais íntimo.

O que acabo de dizer não deve ser interpretado tanto como uma crítica, mas antes como um desejo de entendimento. O senhor também diz que não aprecia a natureza da relação mestre-discípulo e que prefere considerar-se como um amigo. Então, porque não consigo aceitá-lo e acreditar em si constantemente?

A razão pela qual eu tenho tantas dúvidas sobre se o Zen alguma vez me poderá aproximar da verdade é porque agora verifico que não sei nada sobre ele. Qual é a ‘verdade’ que é apercebida no Zen? Porque é que só alguns se apercebem? É o grau de compromisso, de sinceridade ou de clareza que determina a diferença? Ou é tudo uma questão de sorte?

Aileen

 

Tudo o que tenho feito e dito são apenas bolhas à superfície de um charco, comparado com o que encontro e consigo sondar nas tuas palavras.

Agradeço-te muito, porque na realidade preciso dessas perguntas que penetram na minha vida. Estava cego para a cegueira habitual do meu oculto ego e foi o espelho límpido da tua pergunta que o veio revelar; e cem vezes hei-de morrer na minha própria cegueira. Busco palavras e não consigo encontrar nenhuma. É uma mentira tudo o que eu disse? Não, o que eu disse é a verdade, mesmo que a minha conduta diária para contigo tenha sido igual à de uma criança egocêntrica. Tudo o que me resta fazer agora é escutar-te atentamente, desde o fundo do meu ser. Preciso de me olhar como um verdadeiro principiante da prática do Zen. Agora compreendemos que mestre e discípulo não são seres separados.

Por favor, prossegue na tua procura da verdade até encontrares a resposta real, a vida real. E, por favor, tem a plena-consciência que somos todos irmãos no Caminho Aberto. O meu verdadeiro caminho é partilhar com todos o que consegui: é ser interrogado e corrigido por todos vós. Se bem que eu também nada compreenda sobre o Zen.

Até mesmo um camelo consegue passar todos os dias pelo buraco de uma agulha; porque será que só tão poucos de nós alcançam o céu?

Hôgen Yamahata

 

No Caminho Aberto, de HÔGEN (DAIDÔ) YAMAHATA (Terceira Parte), tradução José Eduardo Reis e Shingen Manuel Zimbro, Lisboa, Assírio e Alvim, Outubro 1993 (cortesia do editor e de José Eduardo Reis)

Imagem: H. Koppdelaney

 

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