Como se pode transformar a selvajaria do mundo em amor?

Sou advogado. Reuni, catorze anos atrás, um conjunto de moções que, uma vez implementadas, teriam contribuído para que fossem dados enormes avanços no campo da protecção ambiental. Durante todo o tempo em que tive ocasião de trabalhar com vários funcionários de diferentes governos, procurei desmascarar pessoas que dentro de organizações mundiais estavam ligadas a serviços secretos. Como resultado das investigações e atitudes que tomei, a minha vida passou a estar ameaçada. Posso apenas dizer que, nessa altura, senti-me de tal maneira revoltado que a ira foi a única arma que encontrei para combater crimes tão atrozes. Muito embora os meus esforços tenham vindo a ser reconhecidos, a verdade é que deixei de ter um lar, e a minha vida familiar ficou gravemente lesada em consequência desse meu procedimento. Espero que o tempo e o amor me ajudem a superar esta situação.

Se uma pessoa realiza o amor (refiro-me à nascente profunda do amor, cujo fluxo nos permite o natural e espontâneo sentimento da luz solar e da unidade do cosmos), como é que, uma vez fora do «templo», enfrentando o mal, poderá continuar a irradiar serenidade e amor, sem que isso seja acompanhado de grande ira, grande intenção, grande propósito?

(WP, Inglaterra)

Onde ou quando é que o amor se pode tornar real? O amor nunca está realizado ou acabado; o amor é eterno. Por isso, o trabalhar com a ignorância e a crueldade é sem fim. Jamais devemos deixar de trabalhar pelo amor ou de amar. Atrás da montanha que acabámos de subir, há sempre outra ainda maior a passar; haverá sempre rios mais fundos a transpor. Só com incomensurável amor podemos passar os rios e as montanhas e cumprir a tarefa última do nosso quotidiano.

Mesmo que uma forte convicção nos ajude a trabalhar arduamente e a remover montanhas, será realmente necessário haver ira, ódio, ou medo para agirmos face ao crime e à violência? Será possível termos medo e ira e ao mesmo tempo amor? Poder-se-á agir com amor se estamos irados e com medo?

Qualquer um de nós é potencialmente capaz de acabar com o mundo mil vezes seguidas. Este potencial de se ser demoníaco, esta natureza diabólica está desde sempre enraizada no nosso ego. Se as condições forem propícias, é-lhe muito fácil desencadear o mal. Sem qualquer dificuldade conseguimos transformarmo-nos em criaturas monstruosas; Neros, Hitleres. É evidente que é essa espécie de energia ou vontade excessiva que pode causar o mal sem limites e, conduzida pela maior das iras, vir a tornar-se num meio drástica de fugir à obsessão do medo. Visto que todos somos portadores destas perigosas sementes, será que podemos ser assim tão indulgentes para connosco, ao ponto de ter ira ou ódio, ou sentimentos tão extremos por ou contra quem quer que seja?

Nem o medo nem a ira podem ser traduzidos em amor, se bem que, por vezes, ambos possam ser perversamente interpretados como sendo as suas manifestações. Por toda a parte o amor devia traduzir-se em actos quotidianos, desde o coração da terra ao coração do céu, (de coração a coração), através da sabedoria do amor em si.

Há duas formas de sabedoria humana. Uma provém dos nossos desejos ou ideias, a outra só começa quando acaba a nossa própria maneira de viver e de desejar. Por favor, examina estas duas formas de sabedoria no decorrer do teu dia a dia. Será que és capaz de te aperceberes da diferença? Na verdade, a primeira não é realmente sabedoria, mas apenas conhecimento e astúcia kármica.

Não importa se estamos fora da igreja ou dentro do templo. Onde quer que se esteja, agora é o centro de todas as coisas no mundo. No entanto, tenho a acrescentar que a tua maneira de agir não proveio apenas da tua ira. A tua conduta revela um sentido de responsabilidade pela humanidade. E mesmo que a tua motivação tenha vacilado entre a vontade pessoal e a entrega a uma causa colectiva, no seu todo não deixa de revelar uma forma de amor.

Oro para te reconciliares com a tua família e para que venhas a ser compreendido por todas as pessoas. Então poderás esquecer o passado, porque ele já não está no mundo.

Agora é a hora de começares a dar o passo adiante do alto da vara de cem pés!

Hôgen Yamahata

No Caminho Aberto, de HÔGEN (DAIDÔ) YAMAHATA (Terceira Parte), tradução José Eduardo Reis e Shingen Manuel Zimbro, Lisboa, Assírio e Alvim, Outubro 1993 (cortesia do editor e de José Eduardo Reis)

Foto: Helena Martins

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