Meditação Zen

Não deves colocar demasiada ênfase nem ser excessivamente rigoroso com os pormenores do método de meditação que segues. Um método particular de meditação é apenas um dos muitos caminhos para a compreensão – uma forma no âmbito da qual se explora silenciosamente o momento presente. Os métodos de meditação Zen têm em vista duas coisas, o aquietar e a concentração da mente. Uma mente aliviada de pensamentos fortuitos consegue desenvolver uma profunda atenção para com o seu próprio estado.

Em primeiro lugar é preciso aquietar, ou deixar ir os pensamentos que andam à toa. Necessitas de cultivar a atenção para melhor controlares e estabilizares a tua mente, para que ela não te leva para onde não queres ir. Se conseguires aquietar a mente, ela deixará de estar dispersa e desorientada. Nesse ponto deixam de te incomodar, ou de captar a tua atenção, a dor, o entorpecimento, o pruído que ocorrem durante a meditação, assim como estados de espírito passageiros, sentimentos ou emoções.

Em segundo lugar é preciso desenvolver a capacidade de concentração seja naquilo que está precisamente Aqui e Agora (shikantaza), seja num método de meditação, como o koan. O resultado desta concentração é levar o olhar para o interior da própria mente e, consequentemente, de todas as coisas.

Os métodos disponíveis mais comuns são a contagem das respirações, acompanhar a respiração, os koans e shikantaza.

Contagem das respirações – apenas contar mentalmente cada uma das exalações, de um a dez, e recomeçar a partir do um. Fazer isto durante todo o período de meditação. Parece fácil, mas é tudo o que há a fazer. Permanece concentrado na contagem. Ao te aperceberes que te distraíste com um pensamento desorientador, regressa à contagem, começando de novo no um. Empenha-te totalmente em experimentar cada respiração – sê apenas “um”, “dois”, “três”, etc. , sem pensares nisso. Não esperes nada, e não fiques preso a estados de clarividência que tenhas experimentado, nem rejeites qualquer estado de confusão ou de sonolência que possa ocorrer.

Acompanhar a respiração – Quando a concentração na respiração é tal que a consciência do contar se torna clara e a contagem não se perde, o passo seguinte, um tipo de zazen ligeiramente mais difícil, é acompanhar, ainda em ritmo natural, as inalações e as exalações da respiração com o olhar da mente.

Kôan (kung-na em Chinês) – uma frase de um ensinamento, um episódio da vida de um antigo  mestre, ou qualquer tipo de acidente que aponte para a natureza da realidade última pode ser um kôan. Para os que não entendem a “lógica” dos kôans, muitos deles parecem ser diálogos entre excêntricos radicais, se não mesmo entre loucos. Os kôans não são enigmas sem sentido para serem resolvidos e postos de parte. São, antes, ensinamentos subtis sobre a nossa própria vida. Um traço essencial de um kôan é o paradoxo, isto é, algo que transcende a lógica e o conceito. Um kôan não pode ser solucionado pela razão, mas pelo acesso a um outro nível de compreensão que leva o discípulo a um mundo para além das contradições lógicas e modos de pensar dualista.

O sentido dos kôans só pode ser intuído pela experiência directa. Uma vez que não podem ser solucionados pela lógica discursiva, os kôans clarificam o discípulo sobre as limitações do pensamento. Desafiam o ponto de vista condicionado e aperfeiçoam o nosso alinhamento com o nosso eu mais profundo. Os estudantes que estabilizaram devidamente a natureza inconstante das suas mentes podem colocar a si mesmos, na ausência de um professor que o faça, um koan para nele meditarem. Pode ser um koan das colectâneas clássicas Zen (e.g. “Qual é o som quando se bate palmas só com uma mão?”), ou pode ser uma questão mais imediata, baseada na própria situação do praticante, tal como “Quem sou eu?” Os koans são utilizados como um tema de meditação, incessantemente colocados pelos praticantes durante as sessões de meditação e, sempre que possível, ao longo do dia. Nos retiros intensivos o koan é constantemente observado como uma galinha observa os seus ovos ou um gato observa um rato.

Shikantaza – “Apenas sentar”, em japonês. Quer dizer despertar a atenção não-reflexiva que não persegue nem elimina pensamentos, sensações, etc., despertar a atenção distanciada sobre tudo o que surge e se desvanece na consciência seja no interior ou no exterior do teu corpo. É dar plena atenção ao teu corpo sentado. O mestre Zen Dôgen considerava que essa “presença em si” é em si mesma um koan que, correctamente apreendido, indica “as coisas como realmente são”. “Apreender correctamente” este koan deriva da experiência pré-reflexiva manifestada pelo “não-pensar”.

Uma passagem famosa da predicação de Dôgen no Genjôkôan (A Actualização do Ponto Fundamental), do século treze, diz: Estudar a via é estudar-se a si mesmo. Estudar-se a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se de si mesmo é ser reconhecido por uma miríade de coisas. Ser reconhecido por uma miríade de coisas é abandonar o seu corpo-e-mente, e o corpo-e-mente das coisas exteriores. Há um estado no qual se esquece os vestígios da realização e se manifesta a realização sem vestígios ao longo de muito, muito tempo. Ser “reconhecido por uma miríade de coisas” é exprimir a actividade mental do “não-pensar” em que se “esquece”o eu pessoal e também o eu dos outros dado que deixa de estar presente a consciência de tal distinção. Nenhum eu (self) separado está presente para percepcionar “outras” coisas. Neste momento de percepção, o eu (self) é, sobretudo, todas as coisas e vice-versa. Do “não-pensar” flui a única realidade identificável, isto é o incessante, mutável, impermanente manifestar da experiência.

E o que fazer ao surgirem pensamentos? Ao surgirem pensamentos na tua mente não lhes forneças energia para não ficares preso nem lutares com eles; não lhes dês seguimento nem procures evitá-los. Deixa-os em paz, deixa-os ir e vir livremente. O mais importante no zazen é estar atento, é despertar da apatia sonolenta ou do pensamento dispersante e, momento a momento, regressar ao teu método (à postura correta, ao contar das respirações ou ao teu kôan).

cortesia de openway.org.au/ tradução de José Eduardo Reis (com autorização de publicação)

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